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Artigos | Superando os desajustes do mercado de trabalho em odontologia

Superando os desajustes do mercado de trabalho em odontologia.

Aline do Carmo França-Botelho
Cirurgia-dentista
Mestre em Imunologia e Parasitologia Aplicadas (UFU)

Palavras Iniciais

Neste início de século, o mercado de trabalho como um todo, tem sofrido profundas alterações, afetando a odontologia de forma intensa. Este processo rápido e crescente, normalmente encontra o profissional despreparado para superá-lo com sabedoria.

No mercado forma-se livremente o preço de um produto, um bem ou um ou serviço, pelo ajustamento de sua oferta e sua demanda. O estudo de um mercado qualquer deverá considerar: a escolha do objeto, o comportamento do agente da procura e o comportamento do agente da oferta. No caso do mercado do serviço de saúde, esses componentes são, respectivamente, os cuidados de saúde, o doente e os profissionais do setor saúde (ARAÚJO, 2002).

Em detrimento à busca de medidas de prevenção, o mercado de trabalho em odontologia, historicamente, revela uma característica de diagnóstico e tratamento de doenças e alterações da boca e uma conseqüente busca por parte do cirurgião-dentista (CD) em se ajustar a tal realidade.

A prevalência de cárie no Brasil tem diminuído nos últimos tempos, porém a redução dos índices de cárie não ocorreu de forma homogênia na população, visto que grande parcela da população ainda sofre de problemas odontológicos (NADANOVSKY, 2000). A demanda consiste na população que não pode pagar um tratamento. Cerca de 18% da população brasileira nunca recebeu nem sequer um atendimento odontológico durante toda a vida (ANDRADE, 2000). Dados mostram que crianças pobres na faixa etária de 0-6 anos consultam um CD em escala cinco vezes menor que crianças de classe alta (BARROS & BERTOLDI, 2002).

Paradoxalmente há cerca de 193.111 CD no Brasil (CFO, 2004) e a cada ano acrescentam-se em média 12.000 novos profissionais fazendo com que a população de cirurgiões-dentistas cresça cerca de 5,7% ao ano, enquanto o crescimento anual da população brasileira é de 1,6% (SORIA et al 2002).

Na busca pela superação, não se deve procurar um modelo único, uma fórmula mágica para driblar a dura realidade do mercado. As particularidades regionais são distintas e também as expectativas de cada profissional. Seria utopia apontar as soluções, o que é possível é discutir tendências, que possam ajudar cada profissional a encontrar suas próprias respostas.

O presente trabalho objetiva analisar diferentes aspectos da atual realidade profissional da odontologia, contextualizando a odontologia brasileira, com ênfase em aspectos como educação continuada, valorização profissional e adequação ao mercado.

Odontologia e Educação

O acadêmico de odontologia paga por um curso caro, mesmo em faculdade pública, tem que investir em livros e materiais, quando se forma, as opções são restritas e muitas vezes, a única encontrada, é trabalhar em clínicas populares, cumprindo uma carga horária pesada e sendo mal remunerado.

Ter um diploma universitário já não é garantia de ascensão social e financeira. As dificuldades são muitas e os desafios também. Vencer ainda é possível, mas não é fácil. Chegar à colação de grau é apenas a primeira batalha vencida. É utopia imaginar que, formando em odontologia, adquirindo um belo consultório, em local privilegiado, o recém-formado terá uma agenda cheia, que as pessoas irão ver sua bela placa e se interessar pelo tratamento. Conseguir clientes é uma luta árdua até mesmo para os profissionais já estabelecidos há muito tempo.

A preparação e o aprimoramento constante são fundamentais para o bom desempenho profissional. Ser competente é um princípio básico para o sucesso. Optar por odontologia é optar por uma vida de constante estudo. O CD do terceiro milênio é também um cientista e como tal deve estudar, pesquisar e amar a ciência. Secco & Pereira (2004) afirmam que a odontologia há muito tempo ultrapassou os laços artesanais e artísticos e se consolida em bases científicas, buscando uma atuação social na área da saúde.

As áreas básicas da odontologia, tantas vezes negligenciadas por alunos, professores e faculdades, precisam ser valorizadas e terem suas cargas-horárias revistas. São estas disciplinas que dão o suporte científico da profissão.

Avanços como pesquisas de vacinas contra cárie e “terceira dentição” são exemplos do caminho que a ciência está seguindo. Repor o natural é uma constante, a resina “perfeita” já não é mais tão procurada, e sim os biomateriais. É a ascensão da odontologia molecular no terceiro milênio.

A educação continuada é uma necessidade imposta pela sociedade da informação, já que a maioria dos conhecimentos adquiridos durante os cursos de graduação torna-se obsoletos num curto período de tempo. Profissionais de saúde precisam estar atentos aos avanços técnico-científicos de sua área e de áreas afins, realizando freqüentemente cursos e participando de eventos científicos.

Por outro lado, é preciso mencionar que muitas vezes há exageros na oferta de cursos de pós-graduação, principalmente especialização e aperfeiçoamento. Alguns dirigentes de instituições de ensino superior, objetivando apenas retorno financeiro, não realizam pesquisa de mercado para identificar áreas e locais que verdadeiramente necessitam de cursos, não se preocupam com os excessos e muitas vezes nem com a qualidade de ensino oferecida, criam cursos indiscriminadamente. Na tentativa de buscar melhor preparação para vencer as dificuldades, sem questionamento, estes cursos são muito procurados pelos cirurgiões-dentistas, incentivando mais ainda os empresários em novos investimentos. É um ciclo vicioso prejudicial à odontologia.

Também é motivo de preocupação a pouca existência de uma formação adequada para os docentes de odontologia, tanto em nível de graduação quanto de pós-graduação. Araújo (2002) enfatiza que muitas faculdades têm dentistas em seu corpo docente, mas não têm docentes. O professor tem que ter também uma formação pedagógica e não apenas prática clínica. São igualmente importantes o envolvimento na vida acadêmica, disponibilidade e competência na orientação de pesquisas.

Odontologia e Trabalho

No Brasil, ganha-se muito dinheiro com odontologia, porém não por parte dos cirurgiões-dentistas, e sim de empresários, donos de clínicas e planos de saúde. O dentista verdadeiramente trabalha, mas é o atravessador que recebe os lucros. Poucos convênios levam em consideração VRCC (Valores Referenciais Para Convênios e Credenciamentos), criam suas próprias tabelas, com valores absurdos. No desespero de ver seu consultório vazio, o profissional se ilude com a perspectiva de aumento do número de pacientes e concorda com esse tipo de credenciamento.

As dificuldades econômicas do Brasil, como recessão e desemprego, têm reduzido o número de brasileiros que podem pagar um atendimento odontológico privado. Quando muito, procuram clínicas populares, que oferecem um atendimento mais barato e, devido à alta rotatividade, sem a qualidade devida, contribuindo para o desprestígio da profissão.

Na grande maioria das vezes, a única opção que a população encontra é o SUS (Sistema Único de Saúde). As pessoas enfrentam filas e outras dificuldades para então receberem um tratamento odontológico muitas vezes básico, que nem sempre é o suficiente. O que é possível é feito, e muitas necessidades se acumulam.

A odontologia em consultórios, individual, cede espaço, cada vez mais para a odontologia coletiva através da promoção da saúde. Trabalhos preventivos em escolas e empresas são opções para quem deseja permanecer nos grandes centros. É necessário ir onde as pessoas estão e não esperar por elas dentro de um consultório. Pacientes particulares, bons honorários, liberdade da autonomia de trabalho, não condizem mais com a realidade do mercado.

As cooperativas podem ser alternativas viáveis, como também a criação dos próprios planos de saúde, reduzindo os custos, fugindo do atravessador, oferecendo um atendimento de qualidade e mais acessível. A atuação em um grupo multiprofissional também é bem vinda, é uma maneira de enquadrar a odontologia na saúde como um todo indivisível.

Além de tudo isso, é preciso ainda ser um bom empreendedor. Mais uma vez é preciso enfatizar a necessidade do estudo permanente. Qualquer profissional de sucesso, independente da área que atue, deve ter noções de Administração, Economia, Marketing, Contabilidade e Direito. Soria et al. (2002) atentam para a necessidade de habilidade gerencial, conhecimento e compreensão das diferentes formas de organização dos sistemas de assistência e remuneração dos prestadores, como mecanismos importantes na atual realidade da profissão.

É importante também conhecer o perfil do paciente que freqüenta o consultório, saber quais são suas necessidades e interesses, considerando a idade, nível social e cultural, para ter condições de oferecer o que ele busca e tornar o ambiente do consultório o mais agradável possível. Quando o cliente tem suas expectativas atingidas, ou ainda melhor, superadas, torna-se a melhor tática de marketing que se pode ter. Por outro lado, quando insatisfeito, promoverá uma forte e crescente propaganda negativa, através de amigos e parentes.

A associação do dentista com a dor é algo que precisa ser eliminado do imaginário das pessoas. O paciente não deve ter aquela visão do profissional, trabalhando dentro de um consultório, com vários pacientes aguardando na sala de espera, com dor e medo, situações comuns em caricaturas e piadas. O CD precisa ser visto como um profissional que promove a saúde e não apenas alguém que cuida da doença. São necessárias mais campanhas de conscientização, através dos meios de comunicação e também ajustes do próprio profissional, no seu dia-a-dia, através de atitudes que denotem o seu verdadeiro papel.

Outro agravante do mercado é a concorrência desleal. Alguns profissionais desconsideram à ética e abusam das propagandas. Negociam os procedimentos odontológicos como se fossem mercadorias na feira. Com isso prejudica os que trabalham dentro dos princípios éticos, e pior, agrava a imagem negativa da odontologia. Neste contexto, fica difícil convencer os pacientes que a odontologia visa a promoção de saúde.

A prevenção é o futuro próximo da odontologia, e cada vez mais, ganha importância. É mais simples, tem menor custo, não há dor e é acessível a muito mais pessoas. No futuro, praticamente acabarão os procedimentos curativos, trabalhar com odontologia será basicamente trabalhar com odontologia coletiva, prevenção, problemas de oclusão e eventuais reabilitações decorrentes de acidentes.

Os novos CD brasileiros que ainda queiram trabalhar no “antigo molde” podem realizá-lo em cidades pequenas, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde ainda existe demanda. Garrocho (2004) alerta que o desconforto inicial de trabalhar em cidades pequenas pode ser substituído pela satisfação pessoal de ter uma carreira de sucesso. E também destaca que o perfil que o profissional deve ter para trabalhar nestes locais é de um profissional generalista, com diferentes e apuradas habilidades clínicas.

Observa-se uma tendência de que o trabalho assalariado vem ganhando espaço, substituindo o trabalho autônomo. Se por um lado o CD perde a condição de profissional liberal, muitos podem se manter no mercado através do emprego. Como já foi mencionada, a maior parte da população só tem acesso ao tratamento oferecido pelo SUS, portanto se os governantes investirem mais em saúde bucal, na proporção das carências existentes, surgiriam novas vagas no serviço público.

Considerações finais

O mercado mudou e continua mudando permanentemente. Os profissionais e o ensino odontológico têm que acompanhar isso. O desafio é aceitar as mudanças e buscar alternativas, antecipando o futuro e as transformações que ainda podem ocorrer na odontologia. Quem não se conscientizar disso, não sobreviverá no mercado ou se tornará um cirurgião-dentista medíocre e frustrado, trabalhando muito para sobreviver, sem perspectiva de crescimento financeiro e realização profissional.

As dificuldades são muitas, a disputa por espaço no mercado de trabalho é cada vez maior, no entanto, aceitar o desajuste do mercado passivamente é anular-se como profissional e como ser humano. Não desistir, buscar alternativas dentro da ética e trocar experiências, são necessidades de sobrevivência no mercado, mas são também deveres, meios de contribuir para a permanência e valorização da odontologia como profissão.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Araújo IZ 2002. O Mercado de Trabalho Odontológico. Disponível em: <http:// odonto.com.br/coluna.asp?cod=27>. Acessado em 22/04/04.

Barros AJD & Bertoldi AD 2002. Desigualdades na utilização e no acesso a serviços odontológicos: uma avaliação em nível nacional. Ciência & Saúde Coletiva 7(4):709-17.

CFO (Conselho Federal de Odontologia) 2004. Números do CFO. Disponível em: <http://www.cfo.org.br>. Acessado em 17/05/04.

Garrocho AA 2004. Mercado de trabalho pede CD com novo perfil. Jornal do CROMG, 151:2.

Nadanovsky P 2000. O declínio da cárie. In: Saúde Bucal Coletiva, pp. 341-9. In Pinto VG (org). Saúde Bucal Coletiva. Ed. Santos, São Paulo.

Secco LG & Pereira MLT 2004. Formadores em odontologia: profissionalização docente e desafios político-estruturais. Ciência & Saúde Coletiva 9(1):113-20.

Soria ML, Bordin R & Costa-Filho LC 2002. Remuneração dos serviços de saúde bucal: formas e impactos na assistência. Cadernos de Saúde Pública 18(6):1551-9.

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